A recente onda de protestos no Irão, seguida de uma intervenção militar americana, tem chamado cada vez mais a atenção pública. Este agravamento de tensões leva-nos a questionar a estabilidade política da República Islâmica. Será que o regime teocrático instaurado em 1979 conseguirá sobreviver a mais esta onda de protestos? Ou, neste ponto de inflexão, chegará ao seu fim?
Como surgiu o atual Regime?
A história do Irão, ao longo do século XX, foi marcada por tentativas falhadas de democratização, que acabaram por culminar na instauração da República Islâmica, uma autocracia teocrática, isto é, um sistema de governo onde o poder político absoluto está concentrado nas mãos de um único indivíduo, ou de um pequeno grupo de líderes religiosos, cuja legitimidade para governar deriva diretamente da religião.
No início dos anos 1950, o Irão viveu um dos momentos mais democráticos da sua história moderna com o governo de Mohammad Mossadegh, primeiro-ministro eleito pelo parlamento, nacionalista e constitucionalista. Um dos pontos centrais do seu governo foi a nacionalização dos recursos petrolíferos, até então controlados quase exclusivamente por uma companhia britânica. Em 1953, vendo os seus interesses negligenciados, o Reino Unido e os Estados Unidos levaram a cabo a Operação Ajax, na qual derrubaram o governo iraniano por meio de um golpe de Estado.
Esta intervenção interrompeu uma das primeiras tentativas de democratização do país, restaurou o poder autoritário do Xá e deslegitimou a democracia liberal aos olhos de parte da população iraniana, criando uma autocracia ligada aos interesses ocidentais.
Neste contexto, o clero Xiita, liderado por Ayatollah Khomeini, tornou-se a principal força de resistência ao regime. Impulsionado pelo descontentamento popular, o movimento liderado pelo clero assumiu o poder em 1979. Foi então instaurada a República Islâmica, um regime teocrático com o Líder Supremo no topo da hierarquia institucional, que perdura até à atualidade.
A revolta contínua contra o regime
Apesar do apoio inicial à instauração da República, desde a década de 1990 que a população se revolta contra o regime estabelecido em 1979. A imposição de normas religiosas rígidas sobre a vida privada; a censura política; a repressão sobre mulheres e minorias, a deterioração económica causada por sanções internacionais; e a atuação violenta da Guarda Revolucionária (IRGC), têm aprofundado o desgaste do regime e causado descontentamento geral.
Ademais, apesar de eleições existirem, estas são controladas minuciosamente pelas forças do regime, de forma a evitar ameaças à República Islâmica, criando um sentimento de impotência entre a população.
Estes fatores têm alimentado sucessivas ondas de protestos. Destacam-se quatro grandes revoltas: as Manifestações Estudantis em 1999, o Movimento Verde em 2009, os Protestos Socioeconómicos em 2019 e as revoltas “Woman, Life, Freedom” em 2022, que, apesar de marcantes, falharam em mudar o regime.
As manifestações de 1999 foram lideradas por estudantes universitários que se revoltaram contra o encerramento do jornal reformista Salam. Os protestos foram inicialmente pacíficos, mas a reação violenta das forças de segurança desencadeou confrontos que duraram vários dias. Estas manifestações iniciaram o ciclo moderno de contestações no país.
O Movimento Verde de 2009 teve como fator desencadeador uma eleição presidencial que a população considerou fraudulenta. O verde era a cor da campanha do principal candidato da oposição, razão pela qual o movimento ficou conhecido dessa forma. Houve mobilização popular massiva, novamente reprimida de forma excessivamente violenta pela Guarda Revolucionária.
Os protestos socioeconómicos de 2019 foram provocados por um aumento drástico e repentino dos preços dos combustíveis. Teve também ampla mobilização popular e, desta vez, os discursos assumiram um caráter mais explicitamente político, evidenciando uma insatisfação crescente em relação ao sistema. A resposta das forças de segurança foi severa, levando o episódio a ficar conhecido como “Novembro Sangrento”.
As revoltas “Woman, Life, Freedom” tiveram como causa a morte da jovem curda Jina Mahsa Amini, de 22 anos, que morreu sob custódia das autoridades após ter sido detida pela “Polícia da Moralidade”, uma polícia religiosa iraniana, por alegada violação das normas relativas ao uso do hijab. As manifestações, lideradas por mulheres, iniciaram como uma contestação da atuação policial e a obrigatoriedade do véu islâmico, mas rapidamente evoluiram para um movimento mais amplo de questionamento do sistema político e da própria cultura islâmica. As revoltas foram violentamente reprimidas e resultaram em milhares de mortes.
Novas manifestações: 2025 até a presente data
Atualmente, o Irão está a passar por uma nova onda de protestos, que teve início a 28 de dezembro de 2025. Começou com pequenas greves no Grande Bazar de Teerão que tinham como objetivo protestar contra as fracas condições de vida no país. Foram necessárias poucas semanas para as manifestações ganharem grandes proporções e se alastrarem por todo o país, adquirindo um novo objetivo: exigir o fim da República Islâmica.

Este descontentamento foi motivado pela crise económica, notável na alta inflação, degradação de serviços públicos e desvalorização da moeda iraniana; por desigualdades sociais, expressas na pobreza e alienação de comunidades marginalizadas, como Curdos e Baluchis; e pela insatisfação gerada pela falta de liberdades e repressão política.
A resposta das forças do regime foi, como nos protestos anteriores, violenta e sistemática. Foi feito recurso a armas de fogo, incluindo contra menores de 14 anos; detenções em massa, desaparecimentos forçados e tortura; e um corte total de internet no país desde 8 de janeiro. Apesar de não haver concordância em relação ao número exato de mortos nos protestos, é seguro apontar que as forças do regime iraniano foram responsáveis por massacres que resultaram em milhares de mortos.
A fragilidade do atual regime
Após esta nova onda de protestos sem precedentes, à qual aderiram todos os setores da população iraniana, a República Islâmica encontrou-se na posição mais frágil da sua história.
Adicionalmente, em termos de política externa, o Irão tem sido incapaz de espalhar os seus interesses na arena internacional: o seu “Eixo de Resistência” regional, composto pelo Hamas na Palestina, Houthis no Iémen, Hezbollah no Líbano e o regime caído de Assad na Síria, tem sido enfraquecido por sucessivas operações militares israelitas e pela crescente pressão internacional. A isto, somam-se as sanções internacionais aplicadas pelos EUA e pela União Europeia que têm asfixiado economicamente o país.
A reação americana
Para além disso, somado a todos esses fatores, encontra-se a reação americana quanto à repressão dos protestos. O presidente Donald Trump ofereceu apoio explícito aos manifestantes e sinalizou possíveis consequências caso a repressão se agravasse.
Esta retórica marcou um período de forte escalada nas tensões e veio acompanhada do envio do porta-aviões USS Abraham Lincoln para águas próximas do Irão, levando o mundo a perceber que uma intervenção militar americana estava prestes a ocorrer.
Escalada militar
Em 28 de fevereiro de 2026, as tensões culminaram numa escalada militar direta. Os Estados Unidos, em coordenação com Israel, lançaram uma série de ataques aéreos contra alvos estratégicos iranianos, incluindo infraestruturas militares e instalações associadas ao programa nuclear do país.
A operação representou a concretização das ameaças previamente expressas por Washington e alterou profundamente o equilíbrio estratégico da região. Em resposta, o Irão rapidamente retaliou disparando mísseis balísticos contra instalações dos Estados Unidos e de Israel em todo o Oriente Médio, incluindo no Bahrein, Kuwait, Catar e Emirados Árabes Unidos, como forma de reafirmar a sua postura de resistência perante a pressão externa.
Desta forma, as declarações anteriores de ambos os lados materializaram-se num confronto direto, evidenciando como a escalada retórica se transformou rapidamente em ação militar.
Como ficam as negociações entre o Irão e os Estados Unidos?
Desde a instauração da República Islâmica, o Irão tem sido alvo de sucessivos regimes de sanções por parte dos Estados Unidos. Entre 2015 e 2018, houve uma breve suspensão parcial dessas medidas com a assinatura do JCPOA (Acordo Nuclear do Irão), mas a retirada norte-americana do acordo, em 2018, levou à reimposição de sanções e ao agravamento da pressão económica sobre Teerão. Em resposta, o governo iraniano passou gradualmente a ultrapassar os limites de enriquecimento de urânio previstos no acordo, utilizando o seu programa nuclear como instrumento de negociação política.
As negociações acerca do programa nuclear retomam-se em 2026, num contexto de elevada tensão bilateral e fragilidade económica iraniana, que se agravou com os recentes acontecimentos. A escalada militar e a morte de Ali Khamenei, o líder supremo do Irão, em bombardeamentos Americanos e Israelitas, alteraram profundamente o contexto diplomático das negociações e tornaram o seu futuro incerto.
Reações internacionais
A situação no Irão tem atraído atenção e apoio internacional. Milhares de pessoas ao redor do mundo têm demonstrado apoio e solidariedade aos protestantes iranianos através de grandes manifestações e protestos.
Em fevereiro de 2026, numa manifestação em Munique, Reza Pahlavi, o filho exilado do último xá do Irão, dirigiu-se a uma multidão de 200.000 pessoas, afirmando que estava pronto para conduzir o país a um “futuro democrático e secular”. Isto reforçou a perceção de que existem alternativas políticas ao regime vigente.

Paralelamente, os ataques conduzidos pelos Estados Unidos e por Israel contra o Irão em 28 de fevereiro de 2026 provocaram uma forte repercussão internacional. A União Europeia manifestou preocupação com a escalada do conflito e com os riscos para a estabilidade regional. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que “Garantir a segurança nuclear e prevenir quaisquer ações que possam escalar ainda mais as tensões ou comprometer o regime global de não proliferação é de importância crítica”.
Entre os líderes europeus, algumas reações foram mais críticas à ofensiva militar. O presidente francês Emmanuel Macron alertou que o início da guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irão pode ter “graves consequências para a paz e a segurança internacionais”. O primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez também condenou o ataque, classificando-o como uma escalada militar que contribui para tornar a ordem internacional mais instável e apelando à desescalada e ao respeito pelo direito internacional.
A Rússia reagiu de forma particularmente crítica à operação militar. O vice-presidente do Conselho de Segurança russo, Dmitry Medvedev, acusou os Estados Unidos de utilizarem as negociações com o Irão como uma “fachada”, criticando duramente a atuação de Washington. Já a China adotou uma posição centrada na necessidade de evitar uma escalada regional, defendendo um cessar-fogo imediato e apelando à contenção entre as partes.
Por outro lado, alguns aliados dos Estados Unidos demonstraram apoio à operação, argumentando que o objetivo seria impedir que o Irão desenvolva armas nucleares.
Possíveis desfechos
Neste contexto de protestos internos, crise de sucessão e crescente pressão internacional, podem ser identificados três cenários principais para a evolução do sistema político iraniano.
O primeiro corresponde a um cenário de regime survival (sobrevivência do regime). Neste caso, as elites políticas e militares conseguiriam preservar a coesão interna e assegurar uma sucessão controlada após a morte do Líder Supremo, mantendo a estrutura fundamental da República Islâmica através do reforço do aparato repressivo.
O segundo cenário corresponde a um processo de regime transformation (transformação do regime). A pressão simultânea de protestos internos, crise económica, guerra externa e disputas sucessórias poderia conduzir a uma redistribuição de poder dentro da própria estrutura do sistema político. Neste contexto, poderiam emergir reformas institucionais limitadas, sem que isso implique necessariamente o fim da República Islâmica.
O terceiro cenário é o de regime collapse (colapso do regime). Neste caso, a convergência entre mobilização popular generalizada, divisões entre as elites e o enfraquecimento do aparelho repressivo poderia levar à queda da República Islâmica e à emergência de uma nova ordem política, potencialmente influenciada por atores externos, como os Estados Unidos e por figuras da oposição no exílio.
Depois de múltiplas tentativas frustradas de democratização, o Irão chegou novamente a um momento crítico. Será este o momento em que a história deixará de se repetir?
